Debatedores
defendem extinção dos chamados ‘terrenos de marinha
O chamado ‘terreno de marinha’ é um
instituto que só existe no Brasil e gera aos cofres públicos mais de R$ 200
milhões anuais, cobrados de mais de 400 mil pessoas físicas e jurídicas que
ocupam áreas litorâneas. Existente desde 1946, esse instrumento seria
anacrônico e injusto atualmente, o que justificaria sua imediata extinção.
Esses foram alguns dos argumentos apresentados durante a tarde desta quinta-feira
(4) em audiência pública na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania
(CCJ).
A audiência foi requerida pelo senador
Ricardo Ferraço (PMDB-ES), relator das propostas de emenda à Constituição que
tratam do tema e tramitam em conjunto (PECs 53/2007 e 56/2009). O senador
informou que está prestes a apresentar um substitutivo às propostas, com o
objetivo de aperfeiçoar o instrumento, levando em conta as sugestões e críticas
das diversas partes envolvidas. A reunião foi conduzida pelo vice-presidente da
CCJ, senador Anibal Diniz (PT-AC).
São considerados terrenos de marinha
toda a faixa distante 33 metros da água do mar, de acordo com medidas das
médias das marés realizadas em 1831. Em algumas cidades brasileiras, ruas
inteiras se encontram em áreas que foram aterradas e, assim, são terrenos de
marinha e seus ocupantes são obrigados a pagar as taxas anuais e, nas vendas,
desembolsam laudêmio de 5% sobre o valor do negócio. O pagamento é feito à
Secretaria do Patrimônio da União (SPU).
Em 1998, a Lei 9.636 determinou um amplo
recadastramento dos terrenos de marinha, quando pessoas que nunca haviam pagado
taxas passaram a receber da SPU cobranças de foros anuais retroativas a dez
anos anteriores. No recadastramento, a União atualizou os valores dos imóveis,
o que gerou taxas mais elevadas e mobilizou populações contra a legislação. Há
taxas também sobre uso, ocupação ou foro.
O vice-prefeito de Aracaju (SE), José
Carlos Machado, disse que milhares de sergipanos são prejudicados pela
legislação do terreno de marinha, em virtude de o estado ter um litoral
bastante recortado e inúmeros lagos e lagoas. Ele informou que a prefeitura
recorreu à Justiça contra o reajuste excessivo das taxas cobradas pela União
por uso ou ocupação dessas terras e a causa foi ganha. Para ele, a única
solução para o problema é acabar com os terrenos de marinha, pois transferir
sua propriedade para a União ou para os municípios não resolveria a questão.
- Esse instituto só existe no Brasil –
afirmou Machado.
O vice-presidente da Câmara Brasileira
da Indústria da Construção (Cbic), Sebastião Constantino Dadalto, foi breve e
afirmou já ter passado da hora de o Brasil resolver essa questão que, conforme
disse, é um problema que atinge todo o país.
- A sociedade brasileira não aguenta
mais esse instituto – afirmou Dadalto.
Já o especialista no tema e doutor em
Engenharia, Obede Pereira Lima, discorreu detalhadamente sobre a história dos
terrenos de marinha e explicou como deveria ser o cálculo correto para determinar
que áreas caberiam dentro dessa classificação. Ele disse ter conseguido
calcular de maneira exata a linha preamar média de 1831 em determinados trechos
do litoral brasileiro e disse que sua metodologia pode ser usada em qualquer
outra área.
Obede Lima afirmou que, devido ao
aumento do nível do mar desde 1831, atualmente os terrenos de marinha, se
calculados de acordo com o que manda a lei, estariam em sua maioria (95% deles)
ou embaixo d’água ou em áreas de faixas de areia de praias que, de acordo com a
Constituição, são de uso comum, público e coletivo do povo brasileiro, não
podendo ser objeto de cobrança de taxas por parte da União.
Ele acusou a SPU de demarcar os terrenos
de marinha sem usar cálculos científicos, de maneira presumida. De acordo com
Obede, em algumas partes do litoral brasileiro, a SPU avançou mais de 700
metros além do que seria o correto se utilizadas fórmulas matemáticas para o
cálculo.
- As demarcações da SPU são atos
jurídicos imperfeitos, inacabados, impróprios e ilegais. A lei não diz que são
33 metros? – questionou Obede ao exemplificar que praticamente toda a área
urbana da capital de Sergipe, Aracaju, encontra-se em terreno de marinha de
acordo com a União.
Segundo afirmou o engenheiro, as normas
e regulamentos da SPU que regem essas demarcações estão “completamente errados”
e usam cálculos presumidos, fictícios e inadequados. Na opinião de Obede, todas
essas normas e todas as leis que tratam do tema devem ser revogadas.
O procurador do Ministério Público
Federal no estado do Espírito Santo, Carlos Fernando Mazzoco, também criticou
os terrenos de marinha. De acordo com ele, a União tem conduta omissa e abusiva
no trato com os ocupantes dessas áreas. Ele criticou o fato de a SPU cobrar o
laudêmio não só sobre o valor do terreno, mas também sobre o valor das
benfeitorias existentes no local, construídas pelos ocupantes. O laudênio é um
pagamento de 5% que o foreiro faz à União pela transferência dos terrenos de
marinha.
Por sua vez, a secretária de Patrimônio
da União do Ministério do Planejamento, Cassandra Maroni Nunes, defendeu a
existência dos terrenos de marinha pela sua importância arrecadatória, de
preservação do meio ambiente e pela defesa nacional. Entretanto, reconheceu que
as regras que regem seu funcionamento necessitam ser aperfeiçoadas. Dos 400 mil
ocupantes dessas áreas, 20 mil já se encontram dentro dos pré-requisitos de
isenção.
A representante da SPU disse que 40,8%
dos ocupantes pagam apenas R$ 100 anuais e outros 36% pagam até R$ 500 por ano.
Ela informou que o ministério já enviou à Casa Civil da Presidência da
República proposta de alterações, que incluiriam alíquotas mais justas, fim de
pagamentos retroativos, mudanças na fórmula de cálculo do laudênio,
parcelamento de débitos em 60 vezes, extinção de dívidas de até R$ 10 mil.
A senadora Ana Rita (PT-ES) disse ser
necessário adequar a legislação vigente para a realidade do Brasil de hoje, mas
não concordou com a extinção pura e simples dos terrenos de marinha. A senadora
demonstrou otimismo com as propostas apresentadas pela representante do
governo.
FONTE: AGÊNCIA SENADO
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