A função da
cafeína na natureza
Por Fernando
Reinach, biólogo
Você já se perguntou por que uma planta
de café produz cafeína? Seguramente não é para nos propiciar o prazer de um
expresso. Nossa espécie só passou a apreciar o café por volta de 1450, quando a
população do Iêmen e da Etiópia domesticou-se e passou a consumir o café.
Até recentemente se acreditava que a
função biológica da cafeína era proteger a planta contra o ataque de
herbívoros. A cafeína torna as folha e frutas amargas, afastando os predadores.
Os cientistas acreditavam que o efeito da cafeína sobre o sistema nervoso, como
facilitador do aprendizado e inibidor do sono, não estava relacionado à sua
função biológica na natureza. Mas agora tudo mudou.
Essa história começou em 2005, quando
foi descoberto que o néctar produzido pelas flores do café também contém
cafeína. Isso despertou a curiosidade dos biólogos. A grande maioria das
plantas necessita da colaboração de insetos para se reproduzir. Abelhas
transportam o pólen das flores macho para as flores fêmea, garantindo a
fecundação. Mas a competição entre as plantas pela atenção dos insetos é
grande. Em um jardim florido, essa sedução visual e olfativa é evidente. Flores
vistosas, coloridas e cheirosas competem pela atenção das abelhas, que são
remuneradas com uma porção de néctar doce e nutritivo se decidirem visitar uma
flor e concordarem em transportar seu pólen. Será que a cafeína faz parte desse
arsenal de sedução?
Em um primeiro experimento os cientistas
coletaram o néctar de diversas plantas e mediram a concentração de cafeína.
Eles descobriram que a quantidade de cafeína no néctar é sempre baixa, menor
que a quantidade necessária para tornar o néctar amargo e afugentar os insetos.
Em seguida os cientistas decidiram
condicionar abelhas a reconhecer um aroma específico, oferecendo um néctar
artificial como recompensa. Se voasse em direção ao cheiro, o primeiro grupo
era recompensado com um néctar contendo somente açúcar e o segundo grupo, com
néctar contendo açúcar e uma pequena quantidade de cafeína. As abelhas de ambos
os grupos aprenderam rapidamente a voar em direção ao cheiro.
Se na primeira tentativa poucas abelhas
voavam diretamente para a fonte do cheiro e bebiam o néctar, na segunda 20%
delas voavam rapidamente para o cheiro. Na sexta tentativa 60% já tinham
associado o cheiro à recompensa. A velocidade com que as abelhas aprendiam era
praticamente igual, independentemente da presença de cafeína no néctar. A
surpresa veio no experimento seguinte.
Para medir quanto tempo esse aprendizado
durava na memória das abelhas, elas foram testadas novamente 10 minutos e 24
horas após o aprendizado. O resultado é impressionante. Os dois grupos de
abelhas se lembravam do cheiro 10 minutos depois de terem sido educadas. Mas 24
horas depois, as abelhas recompensadas só com açúcar haviam esquecido o que
tinham aprendido. Já as abelhas recompensadas com açúcar e cafeína se lembravam
perfeitamente do que haviam aprendido e voltavam à origem do cheiro
rapidamente.
Esse aprendizado duradouro, induzido
pela cafeína, durou até 72 horas - um tempo longo na vida de uma abelha.
Como a organização do sistema sensorial
e do cérebro das abelhas é bem conhecida, os cientistas foram capazes de
demonstrar que os circuitos cerebrais envolvidos na memória de longo prazo eram
ativados e reforçados quando a abelha consumia cafeína.
Esses resultados demonstram que a
presença de cafeína no néctar das flores de café permite que as abelhas guardem
por mais tempo a associação entre o cheiro das flores e o prazer obtido ao
consumir seu néctar açucarado.
A cafeína parece ser mais uma arma no
arsenal das plantas. Além de usarem flores vistosas e cheirosas e uma
recompensa rica em açúcar, algumas plantas utilizam drogas capazes de agir no
sistema nervoso central dos insetos para garantir que eles voltem frequentemente
às suas flores.
Se esse mecanismo tem um lado romântico,
pois permite às abelhas guardarem por mais tempo memórias deliciosas, ele
também pode ser visto de maneira nefasta. Assim como um vendedor de crack
fornece drogas psicoativas capazes de viciar o consumidor, garantindo sua volta
para obter uma nova dose, podemos imaginar que a planta de café utiliza esse
alcaloide chamado cafeína para alterar o cérebro das abelhas e garantir que
elas retornem às suas flores.
Qualquer que seja sua opinião moral
sobre o uso da cafeína pelas plantas, uma coisa é certa: nós bebemos café pela
mesma razão que as abelhas bebem o néctar nos cafezais. E eu confesso, sem
culpa, sou tão viciado em café quanto qualquer abelha que vive nas proximidades
de um cafezal.
A matéria é do Estadão.
FONTE: CAFEPOINTE
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