Redução da
maioridade penal pode entrar na pauta da CCJ
A redução da maioridade penal deve ser
um dos temas de maior polêmica na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania
(CCJ) durante este ano. A Constituição prevê que não podem ser imputados
penalmente os menores de dezoito anos (artigo 228), que assim ficam sujeitos a
punições específicas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente, mas é
grande a pressão de parte da sociedade para que os hoje menores infratores
possam ser penalmente responsabilizado por suas ações.
Três propostas de emenda à Constituição
(PECs) sobre o tema aguardam, na CCJ, decisão da Mesa Diretora sobre pedido
para que sejam analisadas em conjunto. Depois de receberem parecer da comissão,
seguirão para votação em Plenário e, se um dos textos for aprovado em duas
votações no Senado, será encaminhado à Câmara, onde obedecerá a rito
semelhante, até a rejeição ou promulgação como emenda constitucional.
O tema da maioridade penal chegou a ser
debatido pela comissão de juristas que elaborou um anteprojeto de novo Código
Penal (PLS 236/2012). Os especialistas se dividiram quanto à possibilidade de
redução do limite atual - uma parte considera a previsão uma cláusula pétrea da
Constituição. Mas a comissão ressaltou que, de qualquer forma, o único caminho
para uma eventual mudança seria por emenda constitucional, o que fugia às suas
atribuições.
Crimes hediondos
Os três textos em análise na CCJ têm
nuances específicas no tratamento dos menores infratores. A PEC 33/2012, do
senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), restringe a redução da maioridade penal - para
16 anos - aos crimes arrolados como inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou
anistia: tortura, terrorismo, tráfico de drogas e hediondos (artigo 5º, inciso
XLIII da Constituição). Também inclui os casos em que o menor tiver múltipla
reincidência na prática de lesão corporal grave ou roubo qualificado.
Relator da matéria na CCJ, o senador
Ricardo Ferraço (PMDB-ES) se posicionou pela aprovação, destacando que “a
sociedade brasileira não pode mais
ficar refém de menores
que, sob a
proteção da lei,
praticam os mais
repugnantes crimes”. Para ele, o direito não se presta a proteger esses
infratores, “mas apenas os que, por não terem atingido a maturidade, também não
conseguem discernir quanto à correção e às consequências de seus atos”.
Outros países
O senador Acir Gurgacz (PDT-RO) foi além
em sua proposta (PEC 74/2011): para ele, quem tem 15 anos também deve ser
responsabilizado penalmente na prática de homicídio doloso e roubo seguido de
morte, tentados ou consumados.
A proposta, ainda sem relator na CCJ,
cita exemplos do Mapa Múndi da Maioridade Penal, elaborado pelo Fundo das
Nações Unidas para a Infância (Unifec), em 2005. Segundo esse documento, nos
Estados Unidos, a maioridade varia de 6 a 18
anos, conforme a legislação
estadual. No México, é de 11 ou 12 anos na maioria dos estados. A
América do Sul é a região em que a maioridade é mais tardia: na Argentina e
Chile, aos 16 anos. No Brasil, Colômbia e Peru, aos 18.
Ao justificar o projeto, Gurgacz cita,
ainda, levantamento realizado pela Associação Brasileira de Magistrados e
Promotores de Justiça da Infância e Juventude, segundo o qual os adolescentes
seriam responsáveis por 10% do total de crimes ocorridos no Brasil.
"A redução da idade da
imputabilidade penal de 18 para 15 anos, nos casos de cometimento de crimes de
homicídio doloso e roubo seguido de morte, é necessária, devido ao aumento do
desenvolvimento mental e discernimento
dos adolescentes nos dias atuais e à necessidade de intimidação da prática
desses crimes por esses menores”, salienta Acir Gurgacz.
Sem exceções
A terceira PEC sobre maioridade em
análise na CCJ (PEC 83/2011) é mais ampla que as duas anteriores. O texto,
apresentado pelo senador Clésio Andrade (PMDB-MG), estabelece o limite de 16
anos para qualquer tipo de crime cometido. Clésio propõe uma nova redação para
o artigo 228: “A maioridade é atingida aos 16 anos, momento a partir do qual a
pessoa é penalmente imputável e capaz de exercer todos os atos da vida civil”.
Na opinião do senador, quem tem 16 anos
não só deve ser passível de processo criminal, como deveria ter direito de se
casar, viajar sozinho para o exterior, celebrar contratos e dirigir, ou seja,
deveria atingir também a plenitude dos direitos civis. A proposta, inclusive,
torna obrigatório o voto dos maiores de 16 e menores de 18, hoje facultativo.
"O que temos em mente é dotar o
maior de 16 anos de plena cidadania, com os direitos e responsabilidades
decorrentes dessa nova condição, inclusive na esfera penal”, diz o autor da
PEC, relatada pelo senador Benedito de Lira (PP-AL).
Participação popular
Pesquisa do Instituto DataSenado
publicada em outubro apontou que 89% dos 1.232 cidadãos entrevistados querem
imputar crimes aos adolescentes que os cometerem. De acordo com a enquete, 35%
fixaram 16 anos como idade mínima para que uma pessoa possa ter a mesma
condenação de um adulto; 18% apontaram 14 anos e 16% responderam 12 anos. Houve
ainda 20% que disseram “qualquer idade”, defendendo que qualquer pessoa,
independente da sua idade, deve ser julgada e, se for o caso, condenada como um
adulto.
No mesmo mês, o senador Ivo Cassol
(PP-RO) propôs um Projeto de Decreto Legislativo (PDS 539/2012) que sugere a
realização de plebiscito sobre a redução da maioridade penal para 16 anos, a
ser realizado já nas próximas eleições presidenciais, em 2014.
- Manter em 18 anos o limite para a condição de
imputabilidade é ignorar o desenvolvimento mental dos nossos jovens. A redução
da maioridade, por si só, não resolveria os nossos graves problemas de
segurança pública. Entretanto, seria uma boa contribuição, pois os jovens, em
função da impunidade, sentem-se incentivados à prática do crime - disse Cassol,
no Plenário, ao apresentar a propos
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